Os perigos que a pílula esconde

O contraceptivo esconde segredos que muitas mulheres desconhecem, e dos quais só se inteiram quando ocorrem seus efeitos colaterais.

“Tudo começou com uma dor de cabeça, depois percebi que não sabia mais ler, fui imediatamente para o pronto socorro, onde descobri que estava tendo um Acidente Vascular Cerebral (AVC) decorrente da pílula anticoncepcional”. Este é um exemplo de relatos postados por mulheres na página “Vítimas de anticoncepcionais. Unidas a favor da vida”, no Facebook.

A pílula foi lançada nos Estados Unidos, em 1957, para controlar os distúrbios da menstruação e tinha como efeito colateral a suspensão temporária da fertilidade. Com isso, diversas mulheres começaram a utilizá-las justamente pelo efeito colateral e, em 1960, a Food and Drug Administration (FDA), órgão norte-americano responsável pelo controle do medicamento aprovou a venda da pílula Enovid como primeiro anticoncepcional.

Mas o que para muitas mulheres serviria para prevenir a gravidez indesejada acabou se tornando um pesadelo. Após 56 anos do surgimento da pílula, tem se tornado comum o relato de mulheres que sofrem com seus efeitos colaterais, como tromboses venosas ou cerebrais. Em pesquisa realizada pela Universidade da Califórnia (UCLA), nos Estados Unidos, e publicada no site Exame Abril, pesquisadores descobriram que o uso da pílula pode estar danificando o cérebro feminino. Perceberam que duas regiões, chamadas de córtex orbitofrontal lateral (que desempenha funções de regular as emoções e a resposta a recompensas) e córtex cingulado posterior (que está relacionado à memória e ao desenvolvimento de planos para o futuro), para mulheres que tomam contracepção oral, tendiam a ficar mais finas. Outros problemas que podem ocorrer são AVC e, até mesmo, depressão.

O desenho mostra como ocorre o congestionamento das veias causando trombose venosa – Fonte: Site Atualização Farmacêutica

 

Relatos nas mídias sociais

Mulheres estão contando em formas de relatos alguns problemas de saúde que enfrentaram devido ao uso do contraceptivo, em páginas criadas na mídia social Facebook.

A página “Vítimas de anticoncepcionais. Unidas a favor da vida” conta com cerca de 135.143 mil curtidas e diversos depoimentos de mulheres que sofreram com os efeitos colaterais do contraceptivo. A página foi fundada em setembro de 2014, por Carla Simone Castro, também vítima do anticoncepcional. Na página, ela conta um pouco da sua história.

Carla criadora da página “Vítimas de anticoncepcionais. Unidas a favor da vida” e vítima do contraceptivo – Foto: Facebook

“Em agosto de 2014, depois de seis meses de uso do Yasmin, sofri trombose venosa cerebral, bilateral e três AVCs. Não tinha nenhum fator de risco ou casos na família. Perdi a visão e movimentos, e os recuperei. Em janeiro de 2015 em decorrência da trombose, desenvolvi fístulas no cérebro e precisei passar por dias cirurgias. Na segunda, sofri paralisia da prega vocal direita e perdi a fala. Reaprender a falar está sendo um desafio, mas, estou recuperando com muita fonoterapia. Aqui não demonizamos a pílula, minha busca e luta é pelo direito à informação, sobre os riscos e alternativas de métodos contraceptivos. Isso sim pode ajudar a salvar inúmeras vidas”.

Carla Rossetto, 26 anos, utilizava o contraceptivo desde os seus 19 anos e também sofreu com os seus efeitos colaterais. Ela utilizou o espaço da página para contar um pouco da sua história.

“Hoje completa um mês que me diagnosticaram com embolia pulmonar bilateral e infarto pulmonar do lado esquerdo. Quinze dias antes de ser diagnosticada comecei a sentir dor perto das costelas e no ombro esquerdo. Quando consegui ir a um pneumologista, ele me alertou sobre o risco de estar com embolia, fui direto a um pronto socorro levando comigo uma carta do pneumologista solicitando uma tomografia com contraste, o que constatou a embolia. Nunca fumei, não bebo e não sou obesa. Também nunca tive histórico familiar que sugerisse riscos para um evento trombótico. Nunca utilizei nenhum método contraceptivo sem orientação médica e sempre realizei os exames ginecológicos de rotina. Durante minha internação fiquei dois dias na UTI e três no quarto. Até hoje ainda sinto algumas dores e desconforto e utilizarei anticoagulante via oral por alguns meses. Estou muito feliz de estar bem, de poder compartilhar meu relato, e quem sabe, alertar algumas pessoas sobre o risco”.

Outro ponto de vista

A Bayer é uma das principais indústrias farmacêuticas do mundo e desenvolvedora de vários anticoncepcionais ingeridos pelas mulheres. Segundo a empresa, os hormônios presentes nos contraceptivos orais agem de forma positiva no organismo feminino, no entanto, é essencial que seja observado o perfil de cada paciente. Um estudo publicado na revista científica Expert Opinion, demonstrou que o uso de pílulas anticoncepcionais por longos períodos diminui o risco de tumores de ovário, do endométrio e colo-retal. O estudo foi baseado na revisão de aproximadamente 100 trabalhos científicos e concluiu que o contraceptivo pode ser utilizado também no tratamento de endometriose (doença em que áreas do endométrio se implantam fora do útero), da menorragia (fluxo menstrual intenso) e de miomas uterinos. Em 16 de janeiro de 2014, a Comissão Europeia emitiu uma decisão final no processo de avaliação sobre contraceptivos hormonais combinados, respaldando o posicionamento da Bayer de que não existem novas evidências científicas que mudariam a avaliação positiva de beneficio-risco de anticoncepcionais hormonais combinados.

Os anticoncepcionais hormonais combinados da Bayer, registrados e incluídos no processo de avaliação da Comissão Europeia, são combinados de gestodeno etinilestradiol, drospirenona ou dienogeste, assim como uma combinação de valerato de estradiol e dienogeste. A decisão da Comissão Europeia seguiu as recomendações do Comitê de Avaliação do Risco em Farmacovigilância (PRAC) e do Comitê dos Medicamentos para Uso Humano (CHMP), concluindo que os benefícios dos contraceptivos hormonais combinados na prevenção da gravidez não planejada continuam a superar os riscos e que a possibilidade de tromboembolismo venoso (TEV) associada ao uso de contraceptivo hormonal combinado é pequena.

Mulheres que usam anticoncepcionais também enxergam vantagens na pílula. Cirlene Giordani, 38 anos, moradora da cidade de São Luiz Gonzaga, RS, toma a pílula anticoncepcional a mais de 17 anos. Nunca fez exames para saber se ela tem o risco de desenvolver problemas genéticos como trombose, AVC ou qualquer outro tipo de doença. Ela nos relatou que não sente vontade de interromper o uso, pois se sente segura. “Quando descobri que estava grávida da minha primeira gestação, procurei o meu ginecologista para começar o pré-natal. Quando eu ganhei o Pedro Henrique, voltei a ingerir a pílula. O doutor me receitou um anticoncepcional com uma dosagem mais baixa, porém me deu hemorragia, infelizmente não quis ir ao médico, simplesmente mudei de anticoncepcional, retornando ao que meu corpo era acostumado”.

Cirlene sabe dos males que a pílula pode causar, pois leu na bula do remédio, mas sente-se constrangida de perguntar ao médico.

Ritieli Pilan, 23 anos, moradora de Santo Ângelo, toma o contraceptivo desde seus 15 anos e nunca sentiu nenhum mal estar. Ela acredita que a pílula, até hoje, só fez o bem para ela, pois previne acnes, ajuda a cuidar dos cabelos entre outros benefícios. Ela diz sentir seus seios doloridos e um pouco de dor de cabeça, mas, segundo seu ginecologista é normal, pois a quantidade de hormônios cai nos dias da menstruação.

As orientações do médico ginecologista

A Doutora Marília Simoni Candaten relata que, embora a trombose seja comprovada como efeito colateral da pílula anticoncepcional, o índice de casos de tromboembolismo venoso são baixos e esses medicamentos são seguros. “A frequência de diagnóstico de tromboembolismo venoso varia entre oito e dez por 10.000 mulheres por ano que utilizam pílulas anticoncepcionais combinadas de baixa dosagem”.

As pílulas mais modernas de terceira e quarta geração possuem um risco ainda maior às usuárias do anticoncepcional, pois contêm em sua combinação estrogênio e progesterona. O ideal é que as mulheres se informem com o seu médico se possuem histórico de trombose, hipertensão, câncer de mama ou diabetes na família antes de dar início ao uso da pílula para evitar futuros problemas, explica Dra. Marília

Atualmente, os anticoncepcionais de baixa dosagem são os 15, 20, 30 ou 35 estilestradiol. As pílulas com menor risco dentre todas seriam as lenovorgestrel ou as de estrogênio natural. As de maior risco seriam as com ciproterona ou drosperinona. Aqui entram também o anel vaginal e o injetável mensal. As sem risco para trombose seriam as pílulas que contêm somente progestogênio.

A decisão por qual método usar será sempre da mulher, mas é uma decisão importante, pois existe o risco de ela estar usando uma pílula contraindicada por algum motivo, seja idade, hipertensão, tabagismo, entre outros. Segundo Drª. Marília, o médico deve sempre orientar sobre o uso correto, os possíveis efeitos colaterais e benefícios de cada pílula e também sobre as complicações que podem ocorrer. Deixar claro para a paciente que existem várias vias de administração e vários tipos de combinações hormonais, assim como métodos de contracepção não hormonal. “A paciente deve escolher o método juntamente com o ginecologista diante das opções apresentadas, do beneficio desejado e ciente dos riscos de cada um”, completou.

Patrícia Dal Molin
Thifani Porto Pilan
Redação Jornalística II

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