A articulação política e ideológica entre os universitários tem sido notada nos corredores da Universidade Federal de Santa Maria em Frederico Westphalen.
No último final de semana, de 20 a 23 de novembro, aconteceu a 14° edição do Acampamento Latino-Americano da Juventude em Palmeira das Missões. Segundo a acadêmica de Jornalismo UFSM/FW Iana Reis, que já atuou como assessora do Movimento dos Sem-Terra (MST), a região do norte do Rio Grande do Sul é simbólica por ser a terra de origem de vários movimentos sociais, entre eles o MST e o MPA (Movimento de Pequenos Agricultores).
Durante o terceiro dia do evento, no sábado (22), houve um ato de ocupação de cerca de meio hectare de uma lavoura. Entre as fotos de divulgação, há uma atribuída ao acadêmico de Engenharia Florestal da UFSM/FW, Marcos Lazzaretti e amplamente divulgada na rede social Facebook por outros estudantes que discordam da ação do grupo. Além disso, o estudante foi alvo de vaias durante o almoço no Restaurante Universitário.
O estudante de Jornalismo da UFSM/FW e militante de esquerda, Cássio Prettz destacou que o acampamento foi importante na articulação da esquerda, na construção de movimentos sociais e na própria evolução como militante. “Nesse acampamento teve esse ato que foi a ocupação de uma lavoura, na qual o cara utiliza de transgênicos e usa muitos agrotóxicos, e com a repercussão disso agora ao meio-dia teve esse ato, essa ação opressiva de alguns alunos da faculdade que se mostraram extremamente ignorantes ao pensamento dos outros e sem nenhum respeito à pessoa do Marcos”.
Em oposição à ocupação, o estudante de Agronomia da UFSM/FW, Fabio Horn afirma que não é contra a reforma agrária, mas não concorda com o modo como foram conduzidos os protestos. “Os atos foram feito por manifestantes que são de uma entidade pública de ensino, que levam o nosso nome, o nome do CESNORS”. Segundo Horn, que se declara apartidário, a ação ocorreu de forma primitiva e desrespeitosa.
“O que tem que deixar bem claro é que foram feitas várias associações do Marcos com o DCE e na realidade ele não é membro do DCE há mais de um ano, ele não faz parte da atual gestão”, afirma o membro do DCE e acadêmico de Engenharia Ambiental da UFSM/FW, Landis Vinicius Petersen. Segundo ele, o DCE representa todos os alunos da universidade, portanto não tem posição fixa quanto ao ocorrido. Petersen condena a maneira como estão conduzindo o caso como “totalmente equivocada e desmedida”, além de “tendenciosa e errônea”. “Até porque há grandes indícios de que a fazenda que foi ocupada tenha sido comprada com dinheiro público na década de 70, ela tem mais de 2 mil hectares e o que foi destruído foi menos de meio hectare. É provável que esse produtor perca mais milho que é roubado na beira da estrada do que o que foi destruído”, destaca.
Para a acadêmica de Engenharia Florestal da UFSM/FW, Andressa Araujo, a direita começa a avançar novamente. “Antes, a direita se dizia partidária e realmente era partidária; agora ela se estrutura de forma apartidária e a esquerda está aprendendo a lidar com isso”. A estudante aponta que nos debates tanto no meio de militância, quanto no meio acadêmico e até mesmo on-line os argumentos reacionários não encontram embasamento e geralmente tornam-se uma crítica pessoal ao partido e à sua posição política. Hector dos Santos Facco, acadêmico de Agronomia da UFSM campus Santa Maria, afirma que a esquerda questiona algumas estruturas no que tange o academicismo da universidade. Assim como Andressa, o estudante concorda que a direita se camufla como apartidária e apolíticas ou neutras, mas agem de acordo com o conservadorismo.
O acadêmico de Agronomia da UFSM/FW, Mateus Tisott, afirma sua posição “contra esse tipo de acontecimento pelo fato de invasão de propriedade privada foge das regras das normas federais”. Tisott enfatiza que “a reforma agrária tem que acontecer, mas tem que acontecer na fazenda do Lulinha, tem que acontecer nessas fazendas que tem como lavagem de dinheiro e não como uma propriedade de produção”. O estudante se declara apartidário dentro da universidade e do âmbito educacional. Além disso, chama a atenção para que as pessoas busquem conhecer os alimentos transgênicos e quais seus efeitos.
Outro acadêmico, que preferiu não se identificar, discorda do ato de ocupação. “O desenvolvimento social é bom, mas tudo que é ideal é bom para o todo. “Eles agiram na parte produtiva, e não foram inteligentes porque agiram nos grandes. Têm que ajudar os pequenos, e não moer os grandes”. Segundo ele, que se considera apartidário, para a resolução desses conflitos falta o diálogo. Além disso, destaca que não é por meio de invasão e depredação de propriedades que se alcança um objetivo.
Nenhum entrevistado contrário ao ato comentou sobre as vaias no horário de almoço dirigidas ao estudante Marcos Lazzaretti. O acadêmico de Engenharia Florestal enfatizou que esteve no acampamento como cidadão, e não como universitário. Segundo ele, a ação visava denunciar a questão latifundiária. “A fazenda que foi ocupada simbolicamente tem mais de 20 mil hectares e está na lista do governo federal, é uma fazenda em desapropriação. Apenas dois por cento da área dela é cultivada, esse era o intuito da denúncia também. Além de estar questionando a questão do monopólio sobre a tendência de milho transgênico, porque hoje uma ou duas empresas apenas tem o monopólio da semente”, explica Lazzaretti. O estudante declara ser aberto ao diálogo. “As pessoas que me vaiaram me conhecem e elas podem vir a qualquer momento conversar comigo, em nenhum momento eu vou me negar ao debate de porque eu estava lá, ou porque eu não devia estar”, finaliza.
Fernanda Peron Soranzo / Da Hora
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